segunda-feira, 1 de setembro de 2008

2008: Uma Odisséia na Espanha


A hora de partir não estava sendo nada fácil. Após alguns dias decidindo entre todas as nossas coisas o que poderia seguir conosco e o que deveria ficar fechado em caixas que talvez nunca mais pudessem estar com a gente, tivemos que fechar as malas e dar um abraço apertados nas pessoas que mais amamos neste mundo, e que certamente sentiam um paradoxo entre felicidade por estarmos realizando um sonho e tristeza pela distância que nos separaria.

Para variar, saimos de casa para o Aeroporto Internacional de Guarulhos um pouco atrasados, também por causa das despedidas inevitavelmente demoradas.



Conseguimos achar o check-in faltando 15 min. para o horário-limite. Na verdade foi melhor assim, porque isso reduziu o tempo que ficamos chorando no portão de embarque. Tivemos tempo apenas de dar um abraço apertado em cada um e correr.
Ao passar pelo raio-x, no entanto, fui parada pelos fiscais. Apesar de eu ter remanejados meus cremes para potes menores logo quando decidimos viajar, os frascos que eu comprei achando que eram de 100ml eram, na verdade, de 120ml, e as normas de embarque consideram apenas a capacidade do frasco, independente da quantidade contida. Além do mais, desde setembro eu havia me esquecido da regra de embarque e comprado uma série de cosméticos que desobedeciam as normas. Resultado: ou eu jogava tudo fora, ou voltava ao check-in e despachava ou então eu teria que reembalar tudo em potes menores. Eu não iria jogar meus cremes no lixo para serem usadas por aquelas fiscais com cara de macho. Também não podia voltar e despachar, primeiro porque já havia excedido meu limite de bagagem, depois porque não havia mais tempo. Resolvi então correr até a farmácia do aeroporto, correr mesmo!, e comprar os tais potinhos. Eu e o Dey ficamos feito tontos na área de embarque trocando a embalagem de hidratantes, máscaras capilares, loção para pele e gel para as pernas. Só ficou para trás mesmo uma colônia da Contém 1g, imitação barata do Gabriela Sabatini. Essa não teve jeito, mas eu não me importei muito, porque com o meu primeiro salário em Euros eu certamente não teria problemas em comprar o original.

Por fim terminamos, e mal fechamos a frasqueira ouvimos um funcionário da TAM dizer, já se virando para ir embora: "Madrid, última chamada! Madrid, última chamada". Desesperados, levantamos a mão e dissemos "Madrid? Aqui!". O funcionário então pergunta se éramos "Andrey e Vanessa" e, diante da resposta afirmativa, avisou por rádio: “Segure a porta que Andrey e Vanessa vão embarcar”. E então saímos os três correndo em disparada pelo saguão. Fomos então os últimos a entrar no avião, quando todos já estavam acomodados.
Mas apesar do estresse, a correria para embarcar nos ajudou, porque com isso ninguém percebeu que levávamos como bagagem de mão 15kg além do permitido, que, vale dizer, ficaram mal acomodados sob os assentos e nos manteve desconfortáveis durante as 10h de vôo.
Por causa do volume na mala, viajamos vestindo as nossas peças mais volumosas, que coincidiam em ser as mais quentes. Chegar com estas roupas em Madrid sob o calor de 35° C não foi fácil, sobretudo porque além da roupa tínhamos que carregar toda a bagagem: 4 malas grandes, 1 mala pequena, 1 mochila, 1 sacola de viagem e 1 frasqueira, todos levando a sua capacidade máxima, o que somava 156,8 kg.


A idéia inicial era que alugaríamos no aeroporto uma minivan com GPS, e então seguiríamos por cerca de 630km até Barcelona. Já seria cansativo. Mas nenhuma das locadoras aceitou alugar sem cartão de crédito mesmo com pagamento adiantado, e o único cartão de crédito que levávamos (para caso de extrema necessidade) estava bloqueado e requeria uma senha para usar que não havíamos trazido. Ficamos então cerca de 3h zanzando de um lado para outro do aeroporto, estudando as possibilidades para sairmos dali.
Pensamos então em ir de trem, e, já que havia uma estação dentro do aeroporto, seria uma boa opção também, mas a companhia férrea - Renfe – limitava a bagagem a parcos 20kg por passageiro.
Estudamos também diversas companhias aéreas que faziam o trajeto, mas as conhecidas só tinham lugar na classe executiva e as “low costs” cobrariam mais de excesso de bagagem do que a tarifa em primeira classe, de forma com que não gastaríamos menos de 750€ se quiséssemos ir de avião.
A única saída que nos restava era ir de ônibus até Barcelona. Mas... ONDE pegar o ônibus? Não conseguimos informações em nenhuma das nossas 95 visitas ao balcão de informações, então tivemos que tomar um táxi. Aliás, 2 táxis, porque em um só não caberiam as malas.
Pedimos para que nos deixassem na rodoviária para irmos a Barcelona e então, por 50€, os taxistas nos deixaram na rodoviária principal de Madrid. Ali não havia aqueles cômodos carrinhos de aeroportos, então tivemos que atravessar a rua e arrastar os 8 volumes (repito: 156,8 kg!, em apenas 2 pessoas) da calçada até o guichê de venda de bilhetes. Depois de uma fila de 20min rodeados de marroquinos, moçambicanos e indianos mal-encarados, para a nossa imensa frustração fomos informados que os ônibus para Barcelona saiam de outra rodoviária, a 15min dali.
Tornamos a arrastar tortuosamente os 156,8kg de volta para a calçada e procuramos um táxi. Explicamos a situação a um sujeito que, apesar de ter um carro pequeno, disse que poderia nos ajudar a levar toda a bagagem em um único carro, ainda que aquilo fosse proibido. Ficamos bem contentes com a boa-ação, até descobrirmos que pagaríamos 63€ para irmos espremidos em um carro abafado por um trajeto de 5min.
A rodoviária em questão era menos turística, integrada com um terminal de ônibus urbano. Eram 3 andares subsolos, quente e abafado, que dispunham de um elevador ridículo de 1m x 1m. Levamos então as malas para o andar, eu com metade da bagagem, e o Dey em seguida, com a outra metade. Os bilhetes custaram 67€ para nós dois, mas com o excesso de bagagem, a tarifa ficou em mais 118€. A má notícia era que eram 17h e o próximo ônibus sairia às 19h50. Perguntei então para a atendente em qual plataforma pegaríamos o ônibus, ela sublinhou o número 32. Juntamos então as malas em um canto da rodoviária e lá ficamos até o horário.
Como estávamos um pouco longe das plataformas, estávamos apenas em duas pessoas e já havíamos sido alertados sobre o alto índice de assalto a malas de turistas, saímos cada um arrastando pela rodoviária três malas e uma mochila. Não me perguntem de onde tiramos braços e força, porque descobrimos naquele dia que é impressionante as coisas que conseguimos fazer quando não temos a opção de não fazê-lo.




O ônibus sairia às 19h50. Às 19h45, no entanto, notamos que as pessoas ainda estavam pacientemente aguardando em fila e que o ônibus sequer estava aberto. Fomos então informados que aquele era o ônibus errado, e que nosso ônibus sairia do terminal 17 e que, como podíamos ver lá longe, já estava fechando a porta do bagageiro. Corri como nem Forrest Gump poderia ter feito, pedi ao motorista que esperasse e então ajudei o Dey com todo o nosso precioso tesouro.
A viagem só não foi mais tranqüila porque nossos assentos eram separados, e, como bom casal recém-casados que somos, queríamos ficar juntos e tivemos que trocar de lugar a cada parada que fazíamos.
Também ficamos um tanto quanto decepcionados quando o ônibus em que estávamos passou pelo aeroporto internacional, bem em frente ao terminal de embarque de onde viemos (ao leitor desatento, isto significa que passamos todo este estresse com malas e táxi, além de gastarmos 113€ à toa, simplesmente porque nenhum funcionário do aeroporto pôde nos dizer que havia dali transporte para Barcelona).
Enfim, salvo estas pequenas peças que o destino nos pregou, tudo ia bem até às 2h, quando aproveitamos a pequena pausa para toilette para rapidamente ligar para as nossas mães e para a Dani, minha amiga de anos e nossa “correspondente” em Barcelona, que nos ajudou com o apartamento. Compramos um suco apenas para conseguir moedas para o telefone, falamos rapidamente com as três e voltamos para o ônibus. Mas... cadê o ônibus?
Sim! O ônibus tinha partido sem nós, mas com a nossa bagagem, nosso notebook, minha bolsa com todo o nosso dinheiro da viagem e até com as nossas blusas de frio. Ficamos desesperados, pedimos um táxi, pedimos socorro, mas felizmente o Sr. Jaume, que trabalhava na lanchonete da estrada nos explicou que os ônibus daquela companhia (Alsa) passavam de meia em meia hora, e que se comunicavam entre si. Foi a meia hora mais penosa de toda a viagem. Mas felizmente dali a meia hora contamos ao motorista o ocorrido, descrevemos detalhadamente cada uma das nossas malas e ele avisou ao motorista, que falou que guardaria todos os nossos pertences.
Naturalmente a calma só veio quando chegamos às 4h30 da manhã na rodoviária de Barcelona e constatamos que todas as nossas coisas estavam seguras no bagageiro do ônibus, tudinho mesmo, inclusive um bem-casado do casamento do Xu que eu havia deixado no bolso da jaqueta para comer no caminho.
Dali em diante a viagem foi mais tranqüila. Claro que tivemos ainda que arrastar as malas por uma ruazinha de paralelepípedos tortos e subir dois lances de escada. Como agravante, a esta hora três das malas já estavam sem a alça, sendo que uma delas estava sem nenhuma das duas alças e também sem o puxador do carrinho, o que me fez agradecer aos céus por ter me casado com um homem forte e musculoso.

Encontramos um taxista simpaticíssimo, chamado Paco, que tinha um carro grande (não me perguntem qual!) que comportou confortavelmente todos os nossos ricos pertences. Ele nos ajudou a embarcar e desembarcar as nossas malas e ainda emprestou o celular para que eu ligasse para a Dani, avisando que eu já tinha chegado.
A Dani foi outra musa da nossa Odisséia que, além de não ter ficado brava por termos ligado para ela às 2h para avisar que chegaríamos às 5h, ainda nos pediu uma pizza (que estava na geladeira, porque chegamos 12h depois do previsto), deixou um vinho e ainda deixou o apartamento com telefone, internet e alguns móveis emprestados até que ela volta de viagem, entre eles o Nintendo Wii, que já entrou para a nossa lista de necessidades básicas.


Tenho que admitir que se eu pudesse prever o dia de retirante que eu tive neste 25 de agosto eu estaria agora em um apartamento financiado em 20 anos próximo à casa da minha mãe. Nos sentimos como nordestinos sentados sobre as malas no terminal Tietê. Mas em uma terra diferente que pelo menos eu não conhecia nem por novela.
Mas bem ou mal – no caso, mal – chegamos. E passado o susto inicial, ficamos felizes em estarmos aqui, apesar de sermos diariamente assolados pela saudade imensa que sentimos das pessoas aí no Brasil, principalmente da nossa família.

Nestes 10 dias que estamos aqui já conseguimos desfazer as malas, sentir um pouco o clima da cidade e organizar a documentação do Andrey, que agora é mais espanhol que o próprio Flamenco, e a minha documentação de estrangeira já está também em processo. Vale dizer que a “Extranjería” demora geralmente uns três meses para expedir a identificação de estrangeiro, mas no meu caso particular vai demorar poucos dias porque está sendo processado por uma agência de advogados contratados pela empresa para a qual eu vou trabalhar. (Sim, aos desavisados, eu cheguei na terça com uma entrevista marcada para quinta, para exercer a mesma função na mesma empresa em que eu trabalhava no Brasil. E agora já entreguei os meus documentos para a admissão e só estou esperando a papelada ficar pronta para começar a trabalhar. O escritório fica em um prédio que é colado ao porto velho em que desembarcou Cristovão Colombo após a sua histórica descoberta)




Barcelona é linda! Fundada por romanos ainda antes de Cristo, a cidade é cheia de monumentos medievais que dividem harmonicamente espaço com a arquitetura modernista de Gaudí que se acham espalhadas por todo canto. Tem uma vida noturna intensa (assim o dizem) e ao mesmo tempo tem a praia, que ferve durante o dia (e que também é ainda lenda pra mim). Tem bairros residenciais cheio de velhinhos (como este onde eu estou morando) e tem um centro agitado com ônibus recheados de turistas do mundo inteiro saindo de 5 em 5mim.
Nas próximas postagens, contaremos sobre as vantagens e desvantagens de se viver aqui. Agora eu vou dormir, porque meu fabuloso marido está sozinho na cama me esperando...

6 comentários:

MARA " Maroca " disse...

Oi Andrey faz muito tempo que não nos vemos , mas espero que vc não tenha esquecido da farra que eu e sua mãe fazíamos na sua casa na época do nosso curso de instrumentação. Fiquei muito feliz pelo seu casamento e desejo á vc e a Vanessa muitas felicidades e grandes conquistas ai em Barcelona.
Adorei esse Blog e sempre vou dar uma espiadinha nele, posso ?
Mande notícias e muito sucesso aí.
Vcs já estão trabalhando aí ? Onde ? Mande-me fotos de vez em qdo ok ?
Super beijo MARA / BR / RECIFE/PE

Anônimo disse...

Queridos,
Isso sim foi uma odisséia!
Por Deus!!!!
A gente sabia que ia ser difícil, mas não podia começar menos impossível!?

Bem, fico feliz que agora está tudo bem.

Amo vcs!!!
Beijos cheios de saudade.
"Bejo, tchau"

Anônimo disse...

Vamos atualizar ae? queremos mais noticias e fotos...
No fim de semana mandaremos fotos do churrasco prá vcs....
Beijos
Fa e Tati

Anônimo disse...

Oi Casal...
Tudo bem por aí agora???
Nossa q aventura hein?! Parabéns pela coragem, não consigo imaginar "euzinha" fazendo isso... rs...
Q saudades!!! Boa Sorte!!!
Bjos, Babi

Amando disse...

Nossa Van, que aventura!
Mesmo assim não teve como não dar boas risadas, mesmo com o perigo iminente da perda da bagagem...
foi divertido e emocionante demais!
Felicidades mil para vcs e parabéns pela escolha!
largar tudo aqui e se aventurar em outro continente não é para qualquer um!
Boa sorte, beijos!!!
Grayce!

Anônimo disse...

Meu Deus, como vcs aguentaram já tudo isso!!!!!!!!
Mas estou com muita saudade de vcs.... Peguem uma lampadinha daquele prédio pro Fá e dá próxima vez quero ver a coragem de vcs de ficarem peladões lá na praia......uhuhuhuhhuhuu!!!!!
Ah se preparem, lua de mel em BARCELONA.....Ehhhhhhhhh!!!!
bjssssss